Aguar o Tempo: Quando a memória volta a nos encontrar

07/10/2026

Montagem teatral: Aguar o Tempo

Montagem: In Bust Teatro Com Bonecos

Tribuna do Cretino - Vol. 03 - N° 04 - 2027 / ISSN 3086-1179

Ana Carolina Moreira Figueiredo[1]

Aguar o Tempo, espetáculo do In Bust Teatro Com Bonecos, foi uma das experiências teatrais que mais me chamou atenção pela forma como conseguiu trabalhar a ancestralidade amazônica por meio do Teatro de Animação. Desde a chegada ao Casarão do Boneco, já tive a sensação de que o espaço contribuía para a experiência, mas foi durante a apresentação que comecei a entender a proposta do espetáculo. A utilização de bonecos, máscaras, objetos e a própria condução dos quatro atores e manipuladores foram construindo, aos poucos, um território muito próprio, que parecia estar entre a memória, o presente e aquilo que ainda será deixado para o futuro.

O que mais me interessou em Aguar o Tempo foi perceber que a ancestralidade não aparece apenas como um tema. Ela está presente na maneira como a história é construída. O espetáculo fala sobre o cuidado dos mais velhos com os mais novos e sobre a importância de preservar aquilo que recebemos de quem veio antes, mas também relaciona essa ideia ao meio ambiente e ao território amazônico. Isso faz com que a peça tenha uma preocupação que vai além da história apresentada em cena. Ela provoca uma reflexão sobre o que estamos fazendo com as nossas próprias memórias e com aquilo que será passado para as próximas gerações.

A manipulação dos bonecos é um dos elementos que mais contribuem para isso. Adriana Cruz, Anibal Pacha, Cincinato Marques Jr. e Paulo Ricardo Nascimento conseguem conduzir os objetos e personagens de uma maneira que faz com que eles assumam importância dentro da narrativa. Em alguns momentos, eu deixava de prestar atenção no ator que estava manipulando e começava a enxergar o próprio boneco como parte daquela história. Isso aconteceu principalmente em uma das imagens que mais me marcou, quando tive a sensação de enxergar os meus próprios avós e, ao mesmo tempo, uma criança por trás daquela ideia de árvore genealógica. A cena me fez pensar nas histórias que ouvi dos meus familiares mais velhos e em como elas continuam presentes, mesmo depois de tantos anos.

Acredito que essa seja uma das maiores qualidades do espetáculo: ele consegue partir de uma questão muito relacionada à cultura e à ancestralidade amazônica e fazer com que ela alcance experiências que são pessoais para quem está assistindo. Eu me peguei chorando durante a apresentação, principalmente porque algumas imagens me fizeram lembrar de histórias que os mais velhos da minha família costumavam contar. Nesse sentido, a peça consegue criar uma relação muito direta com o público. Não é necessário ter vivido exatamente aquilo que está sendo mostrado para reconhecer a sensação de receber uma história de alguém mais velho e perceber, depois de adulto, o valor que aquela lembrança possui.

Ao mesmo tempo, essa forma de construção exige bastante do espectador. Aguar o Tempo não parece interessado em explicar tudo de maneira direta. A narrativa é construída por imagens, pela manipulação, pelos objetos e pelas relações que vão surgindo em cena. Para mim, isso funcionou justamente porque permitiu que as imagens despertassem minhas próprias lembranças, mas acredito que também possa fazer com que cada pessoa tenha uma compreensão diferente daquilo que está sendo apresentado. É um espetáculo que pede atenção e disponibilidade para observar e interpretar, principalmente porque boa parte de sua força está no que é sugerido e não necessariamente no que é explicado.

Outro aspecto que considero importante é a relação entre ancestralidade e infância. A peça me fez pensar não apenas nas pessoas que vieram antes de mim, mas também na criança que eu mesma fui. Existe uma preocupação com o cuidado que atravessa essas relações, tanto com os mais velhos quanto com os mais novos. Isso amplia a discussão do espetáculo, porque a ancestralidade deixa de ser apenas uma lembrança do passado e passa a envolver também uma responsabilidade com o futuro. Cuidar das histórias, do meio ambiente e das pessoas que ainda estão crescendo também significa decidir o que queremos preservar e o que queremos transmitir.

A construção visual contribui muito para essa experiência. Os bonecos, as máscaras e os demais elementos utilizados pelos atores fazem com que o espaço se transforme constantemente. Para mim, esse foi um dos pontos mais interessantes da encenação, porque não parecia necessário criar uma estrutura grandiosa para produzir imagens marcantes. Os próprios elementos manipulados pelos artistas eram suficientes para criar diferentes possibilidades dentro daquele território. A atuação dos quatro manipuladores também mantém esse movimento, fazendo com que a história vá ganhando novas formas ao longo da apresentação.

No final, saí do Casarão do Boneco ainda pensando no espetáculo e, principalmente, nas minhas próprias memórias. Aguar o Tempo conseguiu me emocionar, mas acredito que sua importância esteja justamente em não parar na emoção. A peça provoca uma discussão sobre a necessidade de cuidar daquilo que recebemos das gerações anteriores e sobre o que estamos deixando para as próximas. Ao aproximar ancestralidade, meio ambiente, memória e infância, o espetáculo encontra uma maneira sensível de falar sobre questões que são coletivas, mas que também podem ser percebidas de forma muito individual.

Para mim, Aguar o Tempo é um espetáculo que merece ser visto justamente por que não entrega uma experiência pronta. Ele apresenta imagens, relações e memórias e permite que o espectador também coloque suas próprias experiências dentro delas. Foi isso que aconteceu comigo. Enquanto acompanhava a história, acabei encontrando as histórias da minha própria família. E talvez seja essa a principal força da peça: lembrar que ancestralidade não está apenas nos grandes acontecimentos ou nas histórias que são registradas, mas também naquilo que alguém nos contou quando éramos crianças e que continuamos carregando, mesmo sem perceber.

Outubro de 2026

[1] Graduanda do Curso de Licenciatura em Teatro; atividade realizada na disciplina Filosofia do Teatro ministrada pelo professor Edson Fernando;

Ficha Técnica:

Aguar o Tempo

Atuantes em cena (manipuladores):

Adriana Cruz

Anibal Pacha

Cincinato Marques Jr.

Paulo Ricardo Nascimento.

Criação, Roteiro, Estética e Animação:

Adriana Cruz

Anibal Pacha

Cincinato Marques Jr.

Paulo Ricardo Nascimento.

Produção e Atuação Externa:

Cris Costa.

Desenho de Luz e Apoio Técnico:

Thiago Ferradaes.

Realização e Direção Coletiva:

In Bust Teatro com Bonecos (PA).

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