Antônia e a Encomendação das Almas: Entre a Tragédia Grega e a Memória dos Mortos na Amazônia
Montagem Teatral: Antônia e a Encomendação das Almas
Montagem: Grupo Experiência de Teatro
Tribuna do Cretino - Vol. 03 - N° 04 - 2027 / ISSN 3086-1179
Karine Jansen[1]
Por que montar um clássico grego hoje? Essa talvez seja a primeira pergunta que devemos fazer diante de uma encenação contemporânea de uma tragédia de Sófocles. Afinal, o que ainda podem nos dizer personagens concebidos há mais de dois mil anos? Que relações estabelecem com nossos territórios, nossas experiências políticas, nossas manifestações culturais e, sobretudo, com nossas formas de compreender a vida e a morte?
O espetáculo Antônia e a Encomendação das Almas, do Grupo Experiência de Teatro, parece responder a essas inquietações por meio de uma operação cênica profundamente significativa: aproximar a tragédia Antígona, de Sófocles, da tradição dos encomendadores de almas da região de Oriximiná, no oeste paraense, manifestação religiosa e cultural associada aos rituais da Sexta-feira Santa.
Essa aproximação não representa apenas uma tentativa de regionalizar um texto clássico. Trata-se de uma possibilidade de deslocamento cultural, na qual a dramaturgia grega encontra outras formas de expressão da dor, do luto, da ancestralidade e da resistência.
Patrice Pavis, em suas reflexões sobre a encenação contemporânea, compreende o espetáculo como uma construção de sentidos que ultrapassa a dimensão literária do texto dramático. A encenação não é simplesmente a transposição de uma obra escrita para o palco, mas uma prática de interpretação, transformação e produção de novos significados. O texto deixa de ocupar uma posição soberana e passa a dialogar com os demais elementos da cena, com a história e com as condições culturais de sua recepção.
É nessa perspectiva que podemos compreender a escolha do Grupo Experiência. A tragédia de Sófocles deixa de pertencer exclusivamente ao universo da Grécia Antiga para encontrar ressonâncias na cultura amazônica. O canto dos encomendadores de almas estabelece uma ponte entre duas experiências históricas distantes, mas atravessadas por uma questão fundamental: o direito de cuidar dos mortos e de preservar sua memória.
Em Antígona, a protagonista desafia a autoridade de Creonte ao reivindicar o direito de sepultar seu irmão Polinices. O conflito ultrapassa a dimensão familiar e revela um embate entre a lei do Estado e as obrigações éticas, religiosas e afetivas que os vivos mantêm com seus mortos.
Na tradição dos encomendadores de almas, o canto também estabelece uma relação entre os vivos e aqueles que partiram. A voz torna-se uma espécie de passagem, uma manifestação coletiva que reconhece a morte como parte da experiência humana e da memória de uma comunidade.
O encontro entre essas duas tradições produz uma possibilidade poética e política de grande potência.
Mas é preciso também perguntar: de que maneira essa manifestação cultural amazônica participa efetivamente da construção dramatúrgica? Ela transforma a estrutura e os sentidos da tragédia ou funciona apenas como referência estética? Essa questão é importante porque, como nos ajudam a pensar os estudos de Pavis sobre os encontros interculturais, a aproximação entre culturas exige atenção às relações de poder, às traduções simbólicas e aos riscos de transformar manifestações vivas em simples ornamentos da cena.
O interesse dessa operação está justamente na possibilidade de a cultura amazônica não servir como ilustração do clássico, mas atuar como força capaz de reinterpretá-lo.
Ao acompanhar essa proposta de encenação, fui imediatamente transportada para um acontecimento recente de nossa história: a pandemia da COVID-19.
Durante aquele período, milhares de famílias foram impedidas de realizar plenamente seus rituais de despedida. Não podíamos velar nossos mortos, abraçá-los pela última vez ou reunir familiares e amigos para celebrar suas existências. Os protocolos sanitários, necessários diante do risco de contaminação, produziram também uma experiência dolorosa de interrupção dos ritos funerários.
Quantas Antígonas surgiram naquele momento? Quantas pessoas desejaram acompanhar seus mortos e não puderam? Quantos corpos foram sepultados sem a presença daqueles que os amavam?
A lembrança da pandemia atualiza a tragédia de Sófocles de maneira perturbadora. Evidentemente, existem diferenças fundamentais entre a proibição autoritária de Creonte e as medidas sanitárias adotadas durante uma emergência de saúde pública. Entretanto, a experiência humana de não poder realizar os rituais de despedida estabelece uma aproximação emocional entre esses acontecimentos.
A tragédia deixa de ser apenas uma narrativa sobre o passado e passa a interrogar nossas experiências contemporâneas.
Nesse sentido, o espetáculo pode ser pensado também a partir da ideia de que a encenação produz sentidos no encontro entre aquilo que se apresenta no palco e a memória do espectador. A experiência teatral não está inteiramente contida na cena. Ela se completa nas associações, nas lembranças e nas interpretações de quem a testemunha.
Minha memória da pandemia tornou-se, assim, parte da minha leitura de Antônia e a Encomendação das Almas.
Há ainda uma dimensão política importante nessa escolha dramatúrgica. Ao aproximar Sófocles de uma manifestação cultural de Oriximiná, o Grupo Experiência coloca em diálogo diferentes formas de conhecimento e de representação do mundo. A tradição amazônica não precisa ser legitimada pela tragédia grega. Ao contrário, é ela que oferece novas possibilidades de leitura para uma obra consagrada pela história do teatro ocidental.
Esse deslocamento é fundamental para pensarmos a encenação contemporânea produzida na Amazônia. Não se trata de abandonar os clássicos, mas de interrogá-los a partir de nossos territórios, de nossas experiências históricas e de nossos repertórios culturais.
Afinal, quem determina quais narrativas são universais? Por que a tragédia grega é considerada patrimônio da humanidade enquanto tantas manifestações amazônicas permanecem à margem dos grandes discursos sobre a história do teatro?
Talvez uma das maiores possibilidades dessa montagem esteja justamente em inverter essa relação. Não é apenas a Amazônia que encontra Sófocles. É Sófocles que precisa atravessar a Amazônia para continuar produzindo sentidos no presente.
A encenação contemporânea, como nos permite compreender Patrice Pavis, não se define simplesmente pela atualização temporal de uma obra, mas pela capacidade de produzir novas relações entre texto, cena, cultura e espectador.
Antônia e a Encomendação das Almas nos convida, portanto, a pensar a morte não como um acontecimento exclusivamente individual, mas como uma experiência coletiva, atravessada por rituais, crenças, disputas e memórias.
E talvez seja essa uma das questões mais profundas que a tragédia ainda nos oferece: o que acontece com uma sociedade quando ela perde o direito de se despedir de seus mortos?
Entre os cantos de Oriximiná, a desobediência de Antígona e as lembranças de uma pandemia que ainda habita nossos corpos, o teatro reafirma sua capacidade de aproximar tempos históricos e experiências humanas.
Porque os mortos não desaparecem simplesmente quando são enterrados. Permanecem nas vozes, nos gestos, nas narrativas e nos rituais daqueles que continuam vivos.
E o teatro, essa arte da presença e da memória, também pode ser uma forma de encomendar nossas almas.
Novembro de 2026
[1] Diretora de Teatro;
Ficha Técnica:
Antônia e a Encomendação das Almas
Grupo Experiência de Teatro (coletivo com mais de 50 anos de história no Pará)
Elenco:
Luciana Porto, Natal Silva, Paulo Fonseca, Nilton Cézar
Klaus Costa, Dário Jaime Sousa, Bruno Sousa, Gisele Gorayeb
Yeyé Porto, Kátia Menezes e André Reis
Direção Geral:
Geraldo Salles
Dramaturgia e Adaptação:
Adriano Barroso
Direção Musical:
Jonatas da Silva Pereira
Percussão:
Lorena Brito
Cenário e Figurinos:
Nando Lima
Iluminação:
Julia Freitas
Cenotécnica:
Ribamar Monteiro
Contrarregragem:
Tania Gemaque e Álvaro Gouvêa
Direção de Produção:
Yeyé Porto
Fotografia de Divulgação:
Jean Franco / Sapo de Vidro Produções
