Essa rapaziada tem futuro?
Numa garagem, em um palco improvisado, numa das ruas mais importantes do Guamá, uma jovem cientista anuncia que sim!
pulsar-tecn0-ancestral: uma resposta à devastação do planeta e das mentes.
Performance: pulsar-tecn0-ancestral
Montagem: Rio Que Chove Produções Artísticas / Núcleo de Artivismo Mequetrefes
Tribuna do Cretino - Vol. 03 - N° 04 - 2027 / ISSN 3086-1179
Priscilla Rosa[1]
A obra do gênero ficção científica pulsar-tecn0-ancestral está sendo erguida com o esmero e a competência de Yas Laranjas, estudante de mestrado do programa de pós-graduação em artes da Universidade Federal do Pará e que teve os primeiros sopros de vida por entre as paredes de sua residência no bairro do Guamá, periferia de Belém, lugar que também recebeu uma de suas principais apresentações, realizada no dia vinte de agosto de 2026, abrindo a quarta edição da mostra Saci: Somando Arte no Cinema Independente, produzida pela Rio Que Chove Produções Artísticas, em parceria com o Núcleo de Artivismo Mequetrefes, núcleo este que também conta com Yas como componente.
Durante a apresentação, acompanhamos Pulsar, uma jovem afroamazônica que vive em uma Belém distópica onde a população foi condicionada a viver apenas no turno da noite devido ao calor insuportável que tomou conta do cotidiano das pessoas. Com o intuito de controlar a população, o governo mente, dizendo que aqueles que saírem pela parte da manhã danificariam os sistemas implantados pelo corpo, levando os cidadãos a um sentimento constante de pavor e impotência.
Astrofísica, Pulsar descobre, através de seus estudos, que existem maneiras de verificar se essa informação repassada à sociedade é verdadeira, porém, isto implica em precisar revelar, em determinado momento, o plano colonizador do governo. Pulsar, então, se vê em um dilema e recorre às suas ancestrais e aos oráculos para receber orientações que a façam tomar a decisão certa. Durante o desenrolar da trama, Pulsar utiliza a tecnologia de um cubo-ancestral, se depara com códigos em redes anônimas no ciberespaço, dá de cara com um vírus desconhecido de IA – Inteligência Ancestral e, após ganhar a possibilidade de alterar o passado, a cientista transforma-se em uma super-heroína manipuladora de futuros, o que faz com que os chamados "Senhores do Tempo" passem a persegui-la.
Assistindo à performance de Yas Laranjas naquela noite comum de uma quinta-feira de agosto, pensei em diversas coisas, dentre elas, no esforço que tanto Yas quanto a produção envolvida naquela programação empregavam para que tudo saísse dentro dos conformes. Ela, engajada em fazer uma apresentação de qualidade, ainda que para um público pequeno de umas 15 pessoas; o Núcleo de Artivismo Mequetrefes e a Rio Que Chove Produções Artísticas, igualmente empenhadas em agraciar os presentes com uma experiência de qualidade.
Há quem diga que as juventudes não pensam no futuro, há quem vá além na descrença e no pessimismo e sentencie "esse aí não tem futuro", ao se referir a meninos e meninas que não atendem às expectativas, muitas vezes desumanizadoras e impacientes, dos adultos, e essas profecias de derrota se agigantam se estes meninos e meninas forem artistas; aí mesmo que tudo piora: "arte não dá futuro", eles dizem.
Quem poderia acreditar que existe, sim, uma rapaziada empenhada e convicta de que novas possibilidades de existir no porvir são alcançáveis e que essas possibilidades são, muitas vezes, em resposta a todos os veredictos de fracasso e morte destinados a nós, moços e moças com marcadores sociais tão nítidos como os de raça, gênero, classe social e etnia? É nessa atmosfera de insurreição contra essa visão negativa lançada sobre as experiências negras que pulsar-tecn0-ancestral convoca o afrofuturismo e faz dele o seu guia para tornar possível a visualização de um destino de triunfo e vida para o povo preto, para aqueles e aquelas que vivem ouvindo que não dariam "certo". Assim como as profecias endereçadas às pessoas negras são, por vezes, desoladoras, as previsões para o futuro do planeta no que se refere a questões ambientais podem ser igualmente devastadoras, e foi nisso que Yas Laranjas baseou o seu estudo, após se deparar com um dado que aponta Belém como a segunda cidade mais quente do mundo em 2050[2].
Tal projeção fez com que a jovem atriz, em inquietude, investigasse as mudanças climáticas e desenvolvesse uma narrativa que coloca os saberes ancestrais no centro da sua busca por resoluções, fortalecendo identidades amazônicas e exaltando essas identidades, focando em uma mudança na leitura estereotipada e racista dessas presenças, reforçando imagens de dignidade e de credibilidade direcionadas a elas. Aqui podemos levantar o seguinte questionamento: o universo negro amazônico e tudo aquilo que o engloba são capazes de fechar as feridas abertas por um modo destrutivo de tratar o planeta?
Uma jovem artista-cientista negra, moradora da periferia de Belém, estudante de mestrado da UFPA, se debruça sobre uma pesquisa que une variadas linguagens artísticas, afro-futuro e justiça climática em uma das capitais mais quentes do país. E aqui vai uma segunda provocação: se isso não é pensar em futuro, o que mais seria?
Na ocasião em que Yas Laranjas apresentou pulsar-tecn0-ancestral, performance que explora múltiplas linguagens como teatro, artes visuais e cinema, outra observação me pareceu pertinente: refletir que, no futuro que almejamos, cabem diferentes formatos e ilimitadas maneiras de acessar o desconhecido. Na procura por soluções, a curiosidade, a investigação e a ousadia protagonizam, indo na contramão de todos os "nãos" e restrições a que jovens estudantes periféricos são condicionados cotidianamente. A rebeldia presente no ato de experimentar valoriza e engrandece a pesquisa, que se mostra robusta diante dos nossos olhos assim que ganha o centro do palco montado de improviso na garagem.
As escolhas da atriz/protagonista de se mostrar imponente em cena, com seu cabelo black power, com seu óculos afrofuturista, contando com uma projeção na parede que nos leva diretamente para o espaço, com uma paisagem sonora que nos remete às tecnologias tão presentes em nosso cotidiano nas últimas décadas, não são por acaso. Existe ali uma mensagem sendo transmitida de que as linguagens artísticas podem se encontrar e convergir em algo belo e original e, para além disso, nos conclama ao ato corajoso de ousar, de levar para a cena aquilo que já é parte da nossa estética e que, por vezes, é visto como sem valor por ser símbolo ou elemento que nos remete à periferia.
Mais uma vez, proponho uma reflexão: não estaria, então, a juventude apontando outras possibilidades de fazer/pensar/produzir arte? Por que, então, muitas vezes essas novas possibilidades são ignoradas ou descredibilizadas como se não soubéssemos o que estamos fazendo?
A proposta de pulsar-tecn0-ancestral também suscita questionamentos como: de quantas formas podemos nos imaginar no futuro quando o assunto é mudanças climáticas, especificamente em Belém do Pará? Apenas sucumbindo ao calor e às estimativas desoladoras de desconforto térmico ou recorrendo à sabedoria dos nossos ancestrais para pensar em resoluções possíveis que modifiquem uma estimativa catastrófica? Ailton Krenak, em seu livro "Futuro Ancestral", afirma que, em tudo ao redor, estão os nossos ancestrais, nos rios, montanhas, nas folhas e árvores. Ele nos aconselha voltar às sabedorias dos rios, que sempre estivemos perto da água, mas que aprendemos muito pouco com a fala dela. Podemos conectar este princípio de Krenak à busca de Pulsar pela orientação de suas ancestrais diante da desordem, da tirania e do engano.
Que façamos igual à jovem cientista afro-futurista e utilizemos as tecnologias ancestrais, não só para manipular passado, presente e futuro, mas para que esses pilares sigam guiando as juventudes, a fim de que possamos continuar nos organizando, nos religando e construindo novas narrativas de liberdade, reconstrução e futuro. Que esse futuro seja visível nos nossos corpos pretos e na perda da força de perspectivas desoladoras a nosso respeito e a respeito do planeta.
"Se há futuro a ser cogitado, esse futuro é ancestral, porque já estava aqui."
Ailton Krenak.
Outubro de 2026
[1] Licenciatura em Teatro-Universidade Federal do Pará (UFPA) - Atriz e Educadora Social.
[2] Conferir no link da matéria: https://www.dw.com/pt-br/como-bel%C3%A9m-caminha-para-destino-clim%C3%A1tico-infernal/a-71468990
Ficha Técnica:
Pulsar-tecn0-ancestral
Dramaturgia, Direção, Roteiro e Atuação:
Yas Laranjas.
Cenografia:
Manuela Castro.
Sonoplastia:
Tonho Lobato.
Figurino e Visagismo:
Yas Laranjas.
Produção:
Rio Que Chove Produções Artísticas.
Apoio:
Núcleo de Artivismo Mequetrefes.
