O Boto que Acoberta
Montagem Teatral: Eu vi o Boto
3ª MEF – Mostra de Espetáculos de Formação – Curso de Produção Cênica/UFPA
Tribuna do Cretino - Vol. 03 - N° 04 - 2027 / ISSN 3086-1179
Daniel Augusto Souza[1]
O que mais ficou comigo depois de assistir Eu Vi o Boto foi o desconforto. Eu já conhecia a lenda do Boto, mas nunca tinha parado para pensar no que ela podia esconder de verdade. Antes, via aquela história mais como um jeito de cobrir uma traição. Depois da peça, mudei de ideia: passei a enxergar como uma forma de proteger quem abusa.
A história é da Verônica, uma menina de 14 anos que a mãe manda para a casa da avó, Dona Graça, no interior, porque achava ela "rebelde". Lá ela conhece o Josué, um Pastor que começa a se aproximar dela de um jeito estranho. Desde o começo a Verônica não gosta dele e tenta falar o mínimo possível. Mesmo assim ele insiste para ela ir ao culto, até que a avó obriga.
No culto ele começa a fazer perguntas e se interessa ainda mais quando descobre que ela tem só 14 anos. Fala que ela já é uma moça e que logo vai estar na idade de se casar. Aquilo já me incomodou pra caramba. Ele sabia a idade dela e continuava insistindo.
A cena que mais me marcou foi a do estupro. Mesmo com as luzes apagadas, dava para ouvir a Verônica gritando e pedindo para ele parar. Foi horrível de assistir. Os gritos deixaram tudo ainda pior.
Antes disso ela já tinha tentado se afastar. Quando o Josué a agarra e tenta beijar à força, ela consegue fugir e conta para a avó. Só que a Dona Graça não acredita e diz que ela está inventando. Isso também me chocou: a menina procura a pessoa que deveria proteger ela e não é ouvida.
Depois o Josué continua se aproximando até estuprá-la. E ainda por cima fala que ela deveria pensar melhor sobre não querer se casar com ele, porque ninguém ia querer uma mulher que não fosse mais virgem. Ele tenta jogar a culpa nela, como se a violência tivesse sido responsabilidade dela.
No final ela insiste que quem fez aquilo foi o Boto. Foi aí que a lenda fez muito mais sentido para mim. Se o culpado é o Boto, ninguém precisa olhar para o homem que está perto da menina. A culpa some numa história inventada.
Foi isso que mais ficou na minha cabeça. Parei de ver a lenda só como algo ligado à infidelidade e passei a enxergar também como um jeito de acobertar abusadores. A peça me fez pensar em como é mais fácil acreditar numa criatura fantástica do que na menina que está denunciando a violência.
Teve também aqueles momentos em que apareciam dados reais sobre feminicídio, violência sexual, mulheres com medo de denunciar e casos de intolerância religiosa, principalmente contra religiões de matriz africana. Aquilo me fez ver que a história da Verônica não estava tão longe da realidade.
No fim ela vai até a igreja e mata o Josué. Senti alívio. Depois de tudo que aconteceu, ver ela reagindo me trouxe essa sensação, mesmo sabendo que a morte dele não apaga o que ela sofreu.
O que ficou para mim de Eu Vi o Boto foi essa mudança de olhar. O Boto, que antes eu via só como história de traição, passou a representar também uma forma de esconder quem realmente comete a violência. E acho que foi isso o que mais me marcou: perceber que por trás de uma lenda pode existir uma realidade bem mais próxima e bem mais difícil de encarar.
Outubro de 2026
[1] Graduando do Curso de Licenciatura em Teatro; atividade realizada na disciplina Filosofia do Teatro ministrada pelo professor Edson Fernando;
Ficha Técnica:
Eu vi o Boto
Elenco:
Anne Satierf, Madu Sousa, Lariih Paes,
Wanderson Moraes, Walan Cardoso, Rafael Lima
Direção e Dramaturgia:
Babi Simões
Cenografia:
Ronald Almeida, Érica Góes e Diogo Lira
Maquiagem:
Laiza Bonifacio e Cibele Maciel
Figurinista:
Josiane Lima
Iluminação:
Diogo Lira
Músicos de Cena:
Priscila Cobra, João de Souza, Mateus Piedade,
Babi Simões, Cibele Maciel
Sonoplastia:
Maria Luz e Adriana Azevedo
