Por Dentro com a Alma Atarantada

16/10/2026

Montagem Teatral: De Mala e Cuia

Montagem: Brincar é Urgente

Tribuna do Cretino - Vol. 03 - N° 04 - 2027 / ISSN 3086-1179

Esther Ribeiro Nascimento[1]

O espetáculo De Mala e Cuia, parte do Festival Palco Giratório no Pará, foi apresentado no dia 16 de setembro de 2026, no Teatro Universitário Cláudio Barradas. A montagem nos convida, como pertencentes à realidade amazônida, a navegar pelas memórias que há muito deixamos para trás, mas que ainda fazem parte de quem somos como indivíduos. Mais do que uma história sobre amadurecimento, a peça nos faz refletir que crescer não significa abandonar completamente a perspectiva infantil a partir da qual aprendemos a enxergar o mundo.

Acompanhamos o crescimento da palhaça Xulipa Margarida, interpretada por Alana Lima, também responsável pela concepção e dramaturgia. A personagem está organizando uma mala acumulada durante anos para levar em uma viagem, orientada pelo Tempo, que a instrui a se livrar de algumas coisas que estão "ocupando espaço" na sua mala. Xulipa, arrebatada pelo medo de perder suas memórias, decide passear por elas para decidir o que levar consigo na viagem e o que deixar para trás. Ela parece existir no entrelugar do que fomos e daquilo que nos tornamos, reagindo às situações por meio da brincadeira e da curiosidade, sem parecer tentar nos ensinar algo, mas simplesmente sendo.

De Mala e Cuia induz a infância dentro do adulto que assiste, principalmente através da sua interação constante com o público. Crianças e adultos são chamados para brincar, e, de repente, o adulto deixa de ser aquele espectador sentado, silencioso, que observa o que acontece diante dele. Por alguns instantes, ele volta a ser alguém que pode simplesmente responder porque quer responder, rir porque achou engraçado, participar porque foi chamado. Há uma espécie de alegria que parece antiga. Uma alegria que não precisa ser explicada por que o corpo reconhece antes mesmo da memória conseguir nomeá-la.

A Amazônia também aparece nesse lugar de memória. Os elementos amazônicos, como a copaíba, a andiroba e a Matinta, presentes no espetáculo, não parecem estar ali apenas para dizer ao público "isto é amazônico". Eles pertencem a um imaginário que atravessa gerações. São coisas que aprendemos a conhecer quando somos pequenos e que, mesmo depois de adultos, continuam escondidas em algum lugar de nós. Talvez seja justamente essa a força do folclore, que sobrevive porque continua sendo carregado.

Assim, ninguém cresce com as mãos completamente vazias. A gente leva os lugares onde foi feliz. Leva as histórias que ouviu. Leva os monstros que já teve medo de encontrar. Leva os personagens que inventou. Leva as coisas que um dia pareceram enormes e que hoje parecem pequenas. Leva até aquilo que jurou ter esquecido. A criança que fomos continua conosco, mesmo que por vezes esquecida, mesmo quando acreditamos ter deixado tudo pra trás. E então, em uma noite qualquer, somos chamados para brincar e a nossa mala se abre novamente.

Outubro de 2026

[1] Graduanda de Licenciatura em Teatro na Universidade Federal do Pará; atividade realizada na disciplina Filosofia do Teatro ministrada pelo professor Edson Fernando; 

Ficha Técnica:

De Mala e Cuia

Elenco:

Alana Lima, Raul Lima, Adrielle Santana,

Italo Pacheco, Mônica Torres

Direção e Processo de Criação Coletivo

Concepção e Dramaturgia:

Alana Lima

Produção Executiva e Encenação:

Lucas Serejo

Consultoria de Encenação e Bonecos:

Adriana Cruz e Aníbal Pacha

Sonorização e Sonoplastia:

Viena

Cenografia e Sonoplastia:

Mônica Torres

Assistência de Cenografia, Coordenação Técnica de Som e Luz:

Matheus Gabriel

Figurino:

Bruno Ferraz

Arte e Visualidade:

Cau Martins

Design Digital:

Lucas Serejo

Assistente de Produção:

Rui Cunha e Cau Martins

Videomakers e Edição:

Raul Lima e Viena

Parceiros:

Espaço das Artes de Belém, Espaço Cultural Nossa Biblioteca,

Espetaria du Cleo KARIBÉ - alimento sonoro

Realização:

Brincar é Urgente 

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