Por Dentro com a Alma Atarantada
Montagem Teatral: De Mala e Cuia
Montagem: Brincar é Urgente
Tribuna do Cretino - Vol. 03 - N° 04 - 2027 / ISSN 3086-1179
Esther Ribeiro Nascimento[1]
O espetáculo De Mala e Cuia, parte do Festival Palco Giratório no Pará, foi apresentado no dia 16 de setembro de 2026, no Teatro Universitário Cláudio Barradas. A montagem nos convida, como pertencentes à realidade amazônida, a navegar pelas memórias que há muito deixamos para trás, mas que ainda fazem parte de quem somos como indivíduos. Mais do que uma história sobre amadurecimento, a peça nos faz refletir que crescer não significa abandonar completamente a perspectiva infantil a partir da qual aprendemos a enxergar o mundo.
Acompanhamos o crescimento da palhaça Xulipa Margarida, interpretada por Alana Lima, também responsável pela concepção e dramaturgia. A personagem está organizando uma mala acumulada durante anos para levar em uma viagem, orientada pelo Tempo, que a instrui a se livrar de algumas coisas que estão "ocupando espaço" na sua mala. Xulipa, arrebatada pelo medo de perder suas memórias, decide passear por elas para decidir o que levar consigo na viagem e o que deixar para trás. Ela parece existir no entrelugar do que fomos e daquilo que nos tornamos, reagindo às situações por meio da brincadeira e da curiosidade, sem parecer tentar nos ensinar algo, mas simplesmente sendo.
De Mala e Cuia induz a infância dentro do adulto que assiste, principalmente através da sua interação constante com o público. Crianças e adultos são chamados para brincar, e, de repente, o adulto deixa de ser aquele espectador sentado, silencioso, que observa o que acontece diante dele. Por alguns instantes, ele volta a ser alguém que pode simplesmente responder porque quer responder, rir porque achou engraçado, participar porque foi chamado. Há uma espécie de alegria que parece antiga. Uma alegria que não precisa ser explicada por que o corpo reconhece antes mesmo da memória conseguir nomeá-la.
A Amazônia também aparece nesse lugar de memória. Os elementos amazônicos, como a copaíba, a andiroba e a Matinta, presentes no espetáculo, não parecem estar ali apenas para dizer ao público "isto é amazônico". Eles pertencem a um imaginário que atravessa gerações. São coisas que aprendemos a conhecer quando somos pequenos e que, mesmo depois de adultos, continuam escondidas em algum lugar de nós. Talvez seja justamente essa a força do folclore, que sobrevive porque continua sendo carregado.
Assim, ninguém cresce com as mãos completamente vazias. A gente leva os lugares onde foi feliz. Leva as histórias que ouviu. Leva os monstros que já teve medo de encontrar. Leva os personagens que inventou. Leva as coisas que um dia pareceram enormes e que hoje parecem pequenas. Leva até aquilo que jurou ter esquecido. A criança que fomos continua conosco, mesmo que por vezes esquecida, mesmo quando acreditamos ter deixado tudo pra trás. E então, em uma noite qualquer, somos chamados para brincar e a nossa mala se abre novamente.
Outubro de 2026
[1] Graduanda de Licenciatura em Teatro na Universidade Federal do Pará; atividade realizada na disciplina Filosofia do Teatro ministrada pelo professor Edson Fernando;
Ficha Técnica:
De Mala e Cuia
Elenco:
Alana Lima, Raul Lima, Adrielle Santana,
Italo Pacheco, Mônica Torres
Direção e Processo de Criação Coletivo
Concepção e Dramaturgia:
Alana Lima
Produção Executiva e Encenação:
Lucas Serejo
Consultoria de Encenação e Bonecos:
Adriana Cruz e Aníbal Pacha
Sonorização e Sonoplastia:
Viena
Cenografia e Sonoplastia:
Mônica Torres
Assistência de Cenografia, Coordenação Técnica de Som e Luz:
Matheus Gabriel
Figurino:
Bruno Ferraz
Arte e Visualidade:
Cau Martins
Design Digital:
Lucas Serejo
Assistente de Produção:
Rui Cunha e Cau Martins
Videomakers e Edição:
Raul Lima e Viena
Parceiros:
Espaço das Artes de Belém, Espaço Cultural Nossa Biblioteca,
Espetaria du Cleo KARIBÉ - alimento sonoro
Realização:
Brincar é Urgente
