Quando o boto deixa de ser o culpado
Montagem Teatral: Eu vi o Boto
3ª MEF – Mostra de Espetáculos de Formação – Curso de Produção Cênica/UFPA
Tribuna do Cretino - Vol. 02 - N° 03 - 2026 / ISSN 3086-1179
Maria Luísa Rodrigues[1]
Quando penso em Eu Vi o Boto, o que mais lembro é do desconforto que a peça me causou. Eu já conhecia a lenda do boto, mas nunca tinha pensado muito no que poderia estar por trás dela. Antes, eu enxergava a lenda principalmente como uma história usada para esconder uma infidelidade. Depois de assistir à peça, passei a enxergar de outra forma: como uma maneira de acobertar abusadores.
A história acompanha Verônica, uma menina de 14 anos que é mandada pela mãe para morar com a avó, Dona Graça, no interior, porque era considerada "rebelde". Lá, ela conhece Josué, um pastor que começa a se aproximar dela. Desde o começo, Verônica não gosta dele e tenta falar o mínimo possível. Mesmo assim, ele insiste para que ela vá ao culto, até que Dona Graça acaba obrigando a neta a ir.
No culto, Josué começa a fazer perguntas para Verônica e demonstra ainda mais interesse quando descobre que ela tem apenas 14 anos. Ele diz que ela já é uma moça e que logo estará na idade de casar. Isso já me causou desconforto, porque ele sabe que está falando com uma menina de 14 anos e, mesmo assim, continua insistindo nela.
A cena que mais me marcou foi a do estupro. Mesmo com as luzes apagadas, dava para ouvir Verônica gritando e pedindo para Josué parar. Foi uma cena que me causou muita agonia e desconforto. Além de ser uma situação difícil de assistir, ela mexe comigo também por eu já ter passado por uma situação parecida. Ouvir os gritos dela pedindo para ele parar tornou a cena ainda mais difícil para mim.
Antes disso, Verônica já tinha tentado se afastar dele. Quando Josué a agarra e tenta beijá-la à força, ela consegue fugir e vai contar para a avó o que aconteceu. Só que Dona Graça não acredita nela e diz que ela está inventando. Isso também me chamou atenção, porque Verônica procura justamente alguém que deveria protegê-la, mas não é ouvida.
Depois, Josué continua se aproximando dela até estuprá-la. E, depois da violência, ainda diz que ela deveria pensar melhor sobre não querer se casar com ele, porque ninguém iria querer uma mulher que não fosse mais virgem. Essa fala mostra como ele tenta colocar sobre ela uma culpa que não é dela. Foi ele quem fez aquilo, mas é Verônica quem passa a ser tratada como se tivesse perdido o próprio valor.
Depois de tudo, Verônica insiste que quem fez aquilo foi o boto. E foi aí que a lenda começou a fazer muito mais sentido para mim dentro da peça. Se o culpado é o boto, ninguém precisa perguntar quem realmente fez aquilo. Não é preciso olhar para o homem que está perto da menina. A culpa pode ser colocada em uma criatura que nem existe.
Essa foi a principal coisa que ficou na minha cabeça depois da peça. Eu deixei de pensar na lenda do boto apenas como uma história para esconder uma infidelidade e passei a enxergá-la como uma forma de acobertar estupradores e abusadores. A peça me fez pensar em como pode ser mais fácil acreditar em uma história sobre o boto do que acreditar na menina que está dizendo que foi violentada.
Outro momento que me causou choque foram as pausas em que apareciam dados reais sobre feminicídio, violência sexual, mulheres que tiveram medo de denunciar e casos de intolerância religiosa, principalmente contra religiões de matriz africana. Esses momentos me fizeram perceber que a história de Verônica não estava tão distante da realidade. O que estava acontecendo com ela também fazia parte de problemas que continuam acontecendo fora da peça.
No final, Verônica vai até a igreja e mata Josué. Foi um momento em que senti alívio. Depois de tudo que aconteceu, ver ela reagindo contra ele me trouxe essa sensação, mesmo sabendo que a morte dele não apaga o que aconteceu com ela.
No fim, o que ficou para mim de Eu Vi o Boto foi justamente essa mudança na forma de enxergar a lenda. O boto, que antes eu via como uma história ligada à infidelidade, passou a representar também uma maneira de esconder quem realmente comete a violência. E acho que foi isso que mais me marcou na peça: perceber que, por trás de uma história sobre uma criatura fantástica, pode existir uma realidade muito mais próxima e muito mais difícil de aceitar.
Setembo de 2026.
[1] Graduanda do Curso de Produção Cênica – UFPA; Bolsista do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Produção Artística – PIBIPA 2026 pelo Projeto Tribuna do Cretino;
Ficha Técnica:
Eu vi o Boto
Elenco:
Anne Satierf, Madu Sousa, Lariih Paes,
Wanderson Moraes, Walan Cardoso, Rafael Lima
Direção e Dramaturgia:
Babi Simões
Cenografia:
Ronald Almeida, Érica Góes e Diogo Lira
Maquiagem:
Laiza Bonifacio e Cibele Maciel
Figurinista:
Josiane Lima
Iluminação:
Diogo Lira
Músicos de Cena:
Priscila Cobra, João de Souza, Mateus Piedade,
Babi Simões, Cibele Maciel
Sonoplastia:
Maria Luz e Adriana Azevedo
