Quando os bonecos se animam

26/10/2026

Performance com Bonecos: Tralhas Para...

Montagem: Jef Cecim 

Tribuna do Cretino - Vol. 03 - N° 04 - 2027 / ISSN 3086-1179

Edson Fernando[1]

Não lembro precisamente quando eles começaram a aparecer em casa, mas acho que a primeira a chegar foi a ANINHA, uma charmosa elefantinha que veio diretamente da África, ou pelo menos de uma festa de aniversário com temática "africana". O nome foi batizado por minha sobrinha que, na época, tinha cerca de quatro anos de idade. Mesmo com status de estrangeira, a pobre elefantinha, porém, amargou alguns anos morando dentro do baú da cama do quarto. Com estatura de cerca de 20cm, ela ficava ali, dia e noite, dividindo espaço com as malas de viagem, enfeites de Natal e todo tipo de tralha que precisa ser guardada por algum tempo, longe da vista e sem ocupar espaço nos cômodos de casa. Aninha só recebia alguma atenção quando eu precisava procurar algo por ali, quase sempre no fim do ano pra arrumar a casa pros festejos natalinos.

Os anos de ostracismo, contudo, ficaram pra trás depois que os outros membros da minha família de bonecos começaram a chegar. Hoje eles formam uma turminha de dez membros: CHARLES BRAW, UDISTOCK – com essa grafia e pronúncia abrasileirada – e SNOOPY – mais genioso, não me deixou alterar a grafia do nome dele. Esses três primeiros são mais fáceis de conhecer, pois são personagens populares que fazem parte das tirinhas e do desenho animado Peanuts, criação de Charles M. Schulz, década de cinquenta do século passado. O mesmo ocorre com o MOIODINHA, mas, nesse caso, se trata do famoso e mais recente personagem de sucesso do universo Star Wars, o Grogu, popularmente conhecido como Yodinha. O meu se chama Moiodinha – Meu Yodinha = Moiodinha. E fechando a primeira leva dos membros da turminha tem a MAGRELI, uma gata preta, com cara de desconfiada e traços fisionômicos de anime,com tamanho aproximado de um travesseiro. O nome é uma homenagem a minha saudosa gata preta Magrelinha.

Esses cinco primeiros membros da turminha foram todos presentes que ganhei do Amor. Mas também vieram os que nasceram nas máquinas de pegar pelúcia. São eles: DÉLICA PSICODÉLICA, TUCO e MARFIM. A primeira é uma coelhinha muito animada e irrequieta; roqueira e anarquista pintou todos os pelos em tonalidades fortes, coloridas e psicoDÉLICAs. A última, por sua vez, tem personalidade quase oposta à de Délica e é uma ursinha na cor Marfim; ela curte mais uma levada MPB, mas também cultiva ideais anarquistas. E o único menino entre esses três, é o Tuco, um tucano que adora ajudar o Chef Snoopy na cozinha. E minha mãe foi a responsável por trazer o último membro da turminha que é o FOFI, um vombate – animal marsupial de origem australiana; ele tem o corpo fofinho e arredondado, como um travesseiro de pernas, braços e orelhas curtinhas.

Essa turminha não é brincadeira, aprontam todas pela casa, principalmente quando saímos e eles se sentem completamente livres para brincar e se divertir sem ninguém para julgá-los. E como posso ter certeza disso? Não tenho, mas o artista Jef Cecim, na performance Tralhas Para... me faz acreditar na possibilidade e necessidade desse universo animado dos bonecos e dos objetos. No curto espaço de tempo que me encontro com as Tralhas desse artista – isso é uma reclamação Jef, daquelas que fazemos quando alguém nos dá uma coisa muito boa, mas que não dura muito tempo e, então, ficamos com gostinho de "quero mais" – são o suficiente para me enlevar e sentir uma inveja criativa, daquele tipo que me motiva a criar a partir das minhas próprias tralhas.

♫ ♫ ♫ ♫ ♫

Teatro

Lo tuyo es puro teatro

Falsedad bien ensayada

Estudiado simulacro

Fue tu mejor actuación

Destrozar mi corazón[2]

♫ ♫ ♫ ♫ ♫

Sorrateira e com certo ar de indiferença ela entra e me dispara logo essa. Me encara por alguns instantes e percebe que não sou digno de suas gardênias. Segue seu caminho com altivez. A mensagem já me foi dada: Teatro; o Teatro que faço; o Teatro que sou; o Teatro que se confunde com a minha vida; o Teatro que desarticula convenções; O Teatro que convoca pra guerrilha; o Teatro das inversões, subversões, rebeldias; o Teatro que anima ou desanima corações. Lembro dos anos que deixei Aninha esquecida no baú da cama. O objeto esquecido, o boneco desprezado, talvez, por um Teatro embrutecido que apaga as minhas reminiscências de menino, de quando brincava puxando a Rosália por um fio e ela, uma melancia com rodinhas, abria as asas lateralmente e esbugalhava os olhos pra frente espalhando alegria e peraltices pela casa. Hum... Teatro.

Esse é o rastro inicial que ela deixa em mim. Não tendo escolha, sigo seus passos e cada vez mais adentro esse universo animado. E dentre tantas Tralhas que invadem o espaço, logo reconheço o Ratinho de coração despedaçado pela perda de seu grande amor – pelo menos é assim que recordo dele. Outrora ele cantava essa perda à beira de um precipício, num lamento de cortar o coração. Mas agora ele simplesmente dá o ar de sua graça e me deixa no vácuo – e sim, essa é uma segunda reclamação Jef: como eu gostaria de ver novamente aquela esquete. Sou levado a acreditar que o Ratinho cedeu espaço para outro companheiro de mesma dor. E, imediatamente, não tenho como negar: a voz inconfundível de Nelson Gonçalves domina aquele boneco com a personalidade do meu Pai. Três, era o apelido dele – pois segundo me consta, andava sempre com outros dois irmãos nas aventuras e peripécias de infância. Afeito a bebericar uma boa "branquinha", o semblante sério e sisudo era substituído pelo carisma e descontração, seja na roda de amigos ou entre os parentes, e logo, invariavelmente, se arriscava a entoar, em alto e bom som, os versos...

♫ ♫ ♫ ♫ ♫

Negue[3] o meu amor, o meu carinho

Diga que você já me esqueceu

Pise, machucando com jeitinho

Este coração que ainda é seu

Diga que meu pranto é covardia

Mas não esqueça

Que você foi minha um dia

♫ ♫ ♫ ♫ ♫

Papai, quando bebia, tinha desenvoltura de boneco: cantava essas músicas contorcendo o corpo, como se sentisse cada palavra, intensamente, na própria pele; e as expressões faciais acompanhavam tudo num misto de pose de galante com histrionices labiais, igualzinho como vejo ali, a minha frente. E tudo, então, começa a fazer sentido, novamente, pra mim: O boneco que habitava nele, habita agora em mim. Almas de boneco: Ele cantava, eu danço como boneco que sente, intensamente, cada melodia.

E a essa altura já sinto falta de uma boa caneca de loura gelada pra brindar e acompanhar o papai no boneco. Mas quem aparece é uma loira mui caliente. Ora de deixar a inocência de lado, os falsos pudores, as normas de conduta bregas e hipócritas: nem bela, nem recatada e muito menos do lar; ela veste azul e rosa, veste o arco-íris e todas as cores que quiser; e goza, goza muito!!! Sexo anal, sexo oral, sexo dedal, sexo cotovelal, sexo narigal, sexo orelhal, enfim... a loira calientegoza, geme, treme e se entrega a toda sorte de lascividades... toda forma de amar vale a pena e rompe com a ideia careta de que o boneco é coisa de criança. Um manifesto poético pela liberdade de classe: salvem os bonecos da caretice moral reinante, do obscurantismo da linguagem cênica e do horripilante "teatrinho de bonecos". E contra toda essa forma de retrocesso estético-político o grito, outrora de Antonin Artaud, Pedro Cabrita Reis, Gordon Craig e Tadeus Kantor, ecoa: "Queimem os teatros. Não precisamos de teatros".

♫ ♫ ♫ ♫ ♫

One more kiss, dear

One more sigh

Only this, dear

It's goodbye

For our love is such pain

And such pleasure

And I'll treasure till I die

So for now, dear

Aurevoir, ma belle[4]

♫ ♫ ♫ ♫ ♫

Esse é o último suspiro antes da saída. Ele morre. Ou será que não? Boneco aprende desde cedo a arte das troças. Talvez uma técnica de sobrevivência necessária para resistir num mundo cada vez mais cinza, cada vez mais reacionário. Por isso eles riem de nós, humanos, e não perdem oportunidade de nos jogar na cara o quanto nosso mundo se tornou um mero teatro de horrores no qual a regra predominante é "desumanizar para lucrar". E enquanto eles fingem morrer em cena, nós, humanos, geramos todas as condições para nos exterminar de verdade, sem dó nem piedade.

Volto pra casa com a sensação agridoce de quem entende a tragédia que nos cerca. Encontro com a turminha animada no quarto, conto a experiência que acabei de viver. Eles deixam escapar aquele sorriso frouxo de quem sabe a enrascada que nós, humanos, nos metemos. Délica e Marfim, as mais politizadas da turminha, não hesitam no conselho: "Queimem os Teatros! Nós não precisamos de Teatros!"

Outubro de 2026

[1] Ator e diretor teatral desde 1996; Coordenador do Projeto Tribuna do Cretino; Editor da Tribuna do Cretino: Revista de Crítica Teatral; Membro da Associação Internacional de Críticos de Teatro AICT-Brasil.

[2] Tradução livre dos versos da canção "Puro Teatro", La Lupe: "Teatro / O que você faz é puro teatro / Falsidade bem ensaiada / Simulacro estudado / Foi a sua melhor atuação / Destruir o meu coração".

[3] Canção na voz de Nelson Gonçalves, 1961.

[4] Tradução livre dos versos da canção "One More Kiss Dear": "Mais um beijo, querida/ Mais um suspiro / Só isso, querida / É adeus / Pois o nosso amor é tanta dor / E tanto prazer / Que vou guardar até morrer / Então, por agora, querida / Até logo, minha bela". 

Ficha Técnica:

Tralhas Para...

Criação e Performance:

Jef Cecim

Operador de Sonoplastia:

Claudio Melo

Voz Off:

Astréa Lucena e André Mardock

Desing de Som:

Léo Bitar

Desing de Luz:

Claudio Castro

Desing Gráfico:

Thiago Paixão

Direção:

Claudio Melo

Share