Tudo é Rio (e Teatro)
Montagem: Águas Doces: Memórias de Rio.
Solo-Performance de Karina Diaz
Tribuna do Cretino – Vol.02-Nº03-2026 / ISSN 3086-1179
Maria Luisa Rodrigues[1]
Quando tudo começou, apenas o som de assobios e da chuva nos davam um certo norte. Por trás das cadeiras, surgia uma luz branca que, de início, parecia fraca. Aumentava, trazendo consigo outra sonoridade: passos no chão. O assobiar deu lugar a um discurso sobre histórias, memórias e ensinamentos aprendidos em família. E assim, Águas Doces: memórias de rio,se iniciou.
Queria poder transmitir tudo o que pensei e senti durante o espetáculo de uma maneira que não fosse tão sentimental, levando para o lado de uma escrita racional e realmentecom tom de crítica. Porém, a missão se torna quase impossível a partir do momento em que estamos abordando um solo autobiográfico, que conduz os olhos do espectador para algo que permeia por cada canto de Belém (e do Pará em si): a ancestralidade.
O Pará é terra ancestral. Durante uma das partes de seu monólogo, Karina, a atuante, ressalta que Belém foi construída em cima de rios. Rios que banham, levam e contam um pouco sobre cada um de nós. Karina também teve suas vivências ligadas ao rio.
Saudosa, retrata em sua arte os "sermões" que ouvia de sua mãe quando era pequena: "– Sai do rio, menina! Bora, não é hora disso!", ela dizia, demonstrando um pequeno pedaço de sua infância para nós.
Em Águas Doces, há um pouco do que pode ter sido a Karina-criança. No palco, sorria e brincava com os espectadores. Chamava para a brincadeira, contava: "um… dois… dois e meio…" e pedia para contarmos também. O momento que descrevo aqui foi um dos mais doces e bonitos do espetáculo.
Não demorou muito para que vê-la sorrindo me fizesse sorrir também, mesmo que meus olhos parecessem pequenas nuvens de chuva prestes a cair. Senti, por alguns instantes, o gosto agridoce em relembrar tempos onde tudo parecia ser mais simples, mais colorido. Queria poder sentir de novo aquela leveza.
Porém, nem só de calmaria vive a nossa história. No palco, o batuque agitado do tambor, o dançar e os lenços vermelhos que a atuante começou a segurar evocavam a energia batalhadora e ágil de Iansã, orixá das ventanias e tempestades, lembrando que é preciso lutar para manter nossas memórias e tradições de pé.
Memórias são lembranças que, de uma forma ou de outra, continuam vivas. Lembrar nos faz sentir, e sentir nos torna pertencentes. Pertencentes a algo, a um grupo ou a alguém. O solo traz essa noção de pertencimento atrelada à ancestralidade, ao vivenciar aquilo que nossas mães e avós consideravam sagrado. Ao encostar os pés na terra e sentir que faz parte daquele ambiente.
O pertencer é bonito. É como desbravar novos mundos, mas sempre relembrando o caminho de volta para casa. Porém, e quando o pertencimento se torna uma vivência nebulosa?
Enquanto belenense, sinto que estou em um entre-lugar. Um quase-algo. Nasci em um território cercado por rios, mas quase nunca me banhava em suas águas. Quando ando pelas ruas, vejo árvores por toda a minha volta (até mesmo as de mentira). Olhei para meus pés e percebi que eles jamais haviam subido em árvore alguma.
O espetáculo me atravessou ao trazer de volta minha (antiga) vontade de saber mais sobre de onde minha família e meus costumes surgiram, visto que, enquanto menina nascida na capital, eu nunca senti que pertencia a lugar algum que não fossem as ruas de Belém. As histórias que ouvi de minha família e a visão trazida pelo solo, então, me trouxeram um questionamento: existe ancestralidade em uma cidade banhada em rios de concreto?
Talvez essa pergunta seja respondida lá para frente. Ou, quem sabe, não tenha resposta. A única coisa que posso afirmar é que Águas Docesé um espetáculo lindo, no qual vale muito a pena tirar um pouco de seu tempo para assistir. O trabalho de Karina Diaz enquanto dramaturga, diretora e atuante possui não só presença, como uma verdade bonita de se ver. É como se, em cinquenta (ou mais?) minutos, tivéssemos um vislumbre das influências e dos laços que a tornaram a artista-pesquisadora que ela atualmente é.
Obrigada pela experiência, Karina!
Novembro de 2026
[1] Graduanda do Curso de Licenciatura em Teatro.
Ficha Técnica:
Águas Doces: Memórias de Rio.
Dramaturgia, Direção e Atuação:
Karina Diaz
Sonoplastia:
Íris da Selva
Sons da cena:
Larissa Mê, Gley Carreira, Fred William e Íris da Selva
Figurino:
Sidiane Nunes
Direção de iluminação e concepção cênica:
Camila Souza
