Vira tempo, tempo vira, meu tempo também tem que girar.

16/10/2026

Montagem Teatral: De Mala e Cuia

Montagem: Brincar é Urgente 

Tribuna do Cretino - Vol. 03 - N° 04 - 2027 / ISSN 3086-1179

Amélia Evangelista da Silva Pureza[1]

Diante da necessidade da escrita de uma crítica como discente de licenciatura em teatro, resolvi falar um pouco sobre este espetáculo, De Mala e Cuia, que acompanha a personagem Xulipa, prestes a realizar a viagem mais importante de sua vida. Porém, antes de partir, ela se vê na necessidade de diminuir o peso da mala que carrega, uma mala que foi construída ao longo dos anos de sua vida, tendo que escolher o que deixar para trás e o que levar consigo. Em meio as coisas da mala estavam brinquedos, objetos que ganhavam vida, cada um representando uma memória de sua infância, e pra ajudar na escolha dos objetos que deveria deixar, aparece na trama o personagem "Tempo", que apesar de Xulipa não gostar nem um pouco de sua presença, ele está ali para ajudá-la a se desapegar de seus excessos físicos e emocionais, eu diria que é como o remédio que ela precisava.

A montagem gira em torno da questão sobre a pressão social em relação ao amadurecimento e sobre o nosso medo de crescer e eventualmente abandonar nossas origens e culturas, mas que vem mostrando justamente que a força dessas memórias está naquilo que não se apaga no nosso coração, apesar de um dia acabar se apagando da mente, Xulipa representa isso ao mergulhar nas memórias de cada objeto que pega para descartar de sua mala.

No espetáculo é bastante utilizada os elementos de brincadeiras com o público, principalmente as crianças, além dos cenários e o imaginário centralizados nas entidades e na estética da Amazônia no geral, com o rio representando a viagem para a vida adulta que Xulipa terá de fazer. Quando Xulipa finalmente faz a sua travessia do rio, as crianças da plateia são convocadas para ajudar Xulipa a não esquecer de sua própria infância ao nos fazer cantarmos a música: Tempo vira, vira tempo, tempo vai ter que virar, pra eu não me esquecer, tenho que voltar a brincar.

No processo de assistir ao espetáculo eu acabei me lembrando bastante dos programas da TV Cultura que eu assistia na infância, principalmente o "Cata Lendas", apesar de não ter muitas memórias vividas sobre o programa, meio irônico já que o espetáculo fala justamente sobre memórias, me senti conectado, mas não totalmente, talvez porque eu já não me lembre se quando eu era criança eu tinha tanto medo de crescer, medo das responsabilidades da vida adulta, ou talvez eu não tivesse uma forte conexão com minha infância no final das contas, acabei me sentindo mais comovido com a constante interação das crianças com o espetáculo, honestamente, o que fez dessa montagem ser memorável foi justamente a interação com o público, com o auge sendo a acapela da abertura do desenho de cocoricó, o pai e filho que fizeram o Júlio arrasaram viu.

Mas uma coisa que me deixou intrigado e não consegui fazer a conexão enquanto escrevia esta crítica. Antes do espetáculo começar, lembro de nos darem uma "cumbuca" que continha um banho de cheiro, para poder passarmos em nós mesmos, qual era o objetivo disso afinal? Não estou reclamando sobre isso, apenas colocando uma questão, já que ao longo da montagem não consegui ver nenhuma conexão desse banho com o restante da proposta.

Darei o braço a torcer para a trilha sonora, mas principalmente para a moça que tocava o violão e narrava a história de Xulipa para seus netos, a voz dela era muito bonita, quando cantava me sentia como se estivesse escutando o canto da Iara, só que ao invés de ser encantado para o rio, eu apenas encontrava o conforto necessário em sua voz, talvez esse fosse o objetivo afinal. Escutar uma música naquele tom que lhe trouxesse conforto, sensações e brincadeiras que trouxessem o público pra cada vez mais próximo de suas respectivas memórias de seu passado infantil.

Posso não ter tido a devida conexão que talvez devesse ter sentido, mas o espetáculo consegue retratar bem a semiótica relacionada a esses aspectos ligados a nossa infância e nosso medo do desapego do que é conhecido e confortável para nós, posso dizer que por um momento em meio aquelas brincadeiras eu senti, nem que fosse por poucos segundos, a ligação com a minha criança interior ali, esse espetáculo me fez pensar que não precisamos ser adultos rígidos e sérios o tempo todo, que mal faria uma reunião com amigos para brincar de pique-esconde ou pega-pega? O nosso tempo há de virar, e pra não nos esquecermos, temos que voltar a brincar.

Outubro de 2026

[1] Graduanda do Curso de Licenciatura em Teatro; atividade realizada na disciplina Filosofia do Teatro ministrada pelo professor Edson Fernando;

Ficha Técnica:

De Mala e Cuia

Elenco:

Alana Lima, Raul Lima, Adrielle Santana,

Italo Pacheco, Mônica Torres

Direção e Processo de Criação Coletivo

Concepção e Dramaturgia:

Alana Lima

Produção Executiva e Encenação:

Lucas Serejo

Consultoria de Encenação e Bonecos:

Adriana Cruz e Aníbal Pacha

Sonorização e Sonoplastia:

Viena

Cenografia e Sonoplastia:

Mônica Torres

Assistência de Cenografia, Coordenação Técnica de Som e Luz:

Matheus Gabriel

Figurino:

Bruno Ferraz

Arte e Visualidade:

Cau Martins

Design Digital:

Lucas Serejo

Assistente de Produção:

Rui Cunha e Cau Martins

Videomakers e Edição:

Raul Lima e Viena

Parceiros:

Espaço das Artes de Belém, Espaço Cultural Nossa Biblioteca,

Espetaria du Cleo KARIBÉ - alimento sonoro

Realização:

Brincar é Urgente

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